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Segunda Vista

Saiba o que é segunda vista no Espiritismo: a visão espiritual ou percepção extrassensorial, como se manifesta, suas causas e a explicação de Kardec.

A segunda vista é, na Doutrina Espírita, a faculdade que permite ao espírito encarnado perceber pessoas, objetos, cenas e acontecimentos que estão além do alcance dos sentidos físicos, sejam eles distantes no espaço, ocultos por obstáculos materiais ou situados no passado ou no futuro. Allan Kardec dedica um capítulo de O Livro dos Espíritos ao estudo dessa faculdade, explicando-a como uma manifestação natural da emancipação parcial da alma durante o estado de vigília.

Definição e Conceito

Kardec aborda a segunda vista nas questões 455 a 458 de O Livro dos Espíritos. Na questão 455, ele pergunta: “O que é a segunda vista?” Os espíritos respondem que é “a faculdade graças à qual quem a possui vê como se visse, ouvisse, sentisse, sem o emprego dos órgãos dos sentidos”. Essa definição é ampla e abrange diversas formas de percepção extrassensorial.

A segunda vista não se limita à visão no sentido estrito; ela pode envolver audição, tato e outras formas de percepção que transcendem os sentidos físicos. Na prática, porém, o componente visual é predominante, razão pela qual a faculdade recebeu esse nome.

Kardec explica que a segunda vista é uma faculdade do espírito, não do corpo. Ela se manifesta quando o espírito, ainda ligado ao corpo físico, consegue perceber parcialmente a realidade espiritual por meio de seu perispírito, sem depender dos órgãos sensoriais do corpo material. É como se uma fresta se abrisse entre o mundo material e o espiritual, permitindo ao encarnado vislumbrar realidades normalmente invisíveis.

Mecanismo da Segunda Vista

O mecanismo da segunda vista está ligado ao fenômeno da emancipação da alma. Durante o sono, a prece profunda, a meditação ou certos estados emocionais intensos, o espírito se desprende parcialmente do corpo, expandindo sua percepção além dos limites físicos. Na segunda vista, esse desprendimento parcial ocorre durante o estado de vigília, permitindo percepções extrassensoriais enquanto a pessoa está acordada.

O perispírito é o órgão sensorial do espírito. Quando liberado, mesmo parcialmente, das limitações do corpo, ele capta vibrações e informações do meio espiritual com muito mais amplitude do que quando está totalmente integrado ao corpo. A segunda vista é, portanto, uma percepção perispiritual — o espírito “vê” com o perispírito, não com os olhos.

Os espíritos protetores podem facilitar a manifestação da segunda vista, permitindo que seu protegido perceba realidades importantes para sua segurança ou seu progresso. Em alguns casos, é o próprio espírito encarnado que, por sua sensibilidade natural, consegue acessar essas percepções sem auxílio externo — o que configuraria um fenômeno anímico.

Manifestações da Segunda Vista

A segunda vista pode se manifestar de diversas formas:

Visão de espíritos: a capacidade de perceber espíritos desencarnados — suas formas, suas expressões, suas cores periespirituais — é uma das manifestações mais comuns da segunda vista. Essa percepção pode ser clara e detalhada ou vaga e imprecisa, dependendo do grau de desenvolvimento da faculdade.

Visão a distância: a percepção de eventos que ocorrem em locais distantes, sem possibilidade de conhecê-los pelos meios normais. Algumas pessoas relatam ter “visto” acontecimentos em outros países ou continentes no exato momento em que ocorriam.

Visão do passado: em certas circunstâncias, a segunda vista permite perceber cenas de eventos passados, como se o médium estivesse presente no momento em que ocorreram. Essa faculdade está relacionada à psicometria, especialmente quando desencadeada pelo contato com objetos ou locais.

Visão do futuro: a percepção de eventos futuros, embora mais rara e menos precisa, também está incluída entre as manifestações da segunda vista. Kardec explica que os espíritos podem vislumbrar tendências futuras com base em sua compreensão das causas e efeitos em operação, mas que o livre-arbítrio dos envolvidos pode alterar o curso dos acontecimentos.

Percepção da aura: a capacidade de perceber a aura das pessoas — seus campos energéticos, suas cores e seus estados vibratórios — é uma manifestação frequente da segunda vista, que permite ao médium avaliar o estado espiritual e emocional das pessoas ao seu redor.

Segunda Vista e Clarividência

A segunda vista está intimamente relacionada à clarividência, e os dois termos são frequentemente usados de forma intercambiável. Contudo, existem nuances:

A segunda vista, no sentido empregado por Kardec, é uma faculdade mais ampla e genérica, abrangendo diversas formas de percepção extrassensorial. A clarividência, em seu uso mais técnico, refere-se especificamente à capacidade de ver além dos limites físicos — perceber espíritos, auras, cenas distantes.

Na prática espírita contemporânea, a clarividência é frequentemente considerada uma das manifestações da segunda vista, juntamente com a clariaudiência (percepção auditiva), a clarissensiência (percepção por sensações) e a intuição (percepção por conhecimento direto).

Contexto Histórico e Cultural

A segunda vista é reconhecida em diversas culturas e tradições ao longo da história. Na Escócia, a faculdade é conhecida como an da shealladh (“os dois olhares”) e era considerada um dom hereditário em certas famílias. Na tradição nórdica, os videntes eram respeitados como conselheiros de reis e guerreiros.

No contexto cristão, profetas e santos foram frequentemente associados à segunda vista, embora o fenômeno fosse atribuído à inspiração divina e não a uma faculdade natural do espírito. O Espiritismo reinterpreta essas experiências como manifestações da emancipação da alma, fenômeno natural regido por leis compreensíveis.

Na pesquisa psíquica do século XIX e XX, a segunda vista foi estudada sob o nome de “percepção extrassensorial” (PES), com experimentos conduzidos por pesquisadores como J.B. Rhine na Universidade Duke, nos Estados Unidos.

A Segunda Vista na Prática Espírita

Nos centros espíritas, médiuns com segunda vista desenvolvida desempenham funções importantes. Podem identificar a presença de espíritos durante as sessões mediúnicas, descrever as condições espirituais dos assistidos e perceber influências negativas que atuam sobre os encarnados.

O desenvolvimento da segunda vista requer estudo, disciplina e orientação. A faculdade não deve ser cultivada por curiosidade ou vaidade, mas como instrumento de serviço ao próximo e de crescimento espiritual. O Evangelho no Lar, a prece e a frequência ao centro espírita contribuem para o desenvolvimento equilibrado dessa faculdade.

André Luiz, nas obras psicografadas por Chico Xavier, descreve diversas situações em que a segunda vista se manifesta, oferecendo a perspectiva espiritual do fenômeno e ilustrando como os espíritos auxiliam os médiuns videntes em seu trabalho.

Termos Relacionados

  • Clarividência — percepção visual extrassensorial
  • Clariaudiência — percepção auditiva extrassensorial
  • Intuição — percepção direta sem raciocínio lógico
  • Psicometria — leitura de energia de objetos
  • Animismo — fenômenos produzidos pelo espírito do médium
  • Perispírito — órgão sensorial do espírito
  • Aura — campo energético perceptível pela segunda vista
  • Mediunidade — faculdade que inclui a segunda vista