Reencarnação
Reencarnação no Espiritismo: entenda o processo de retorno à vida corporal, o planejamento e a lei de causa e efeito. Descubra por que reencarnamos.
A reencarnação é o processo pelo qual o espírito retorna à vida corporal, assumindo um novo corpo físico para dar continuidade à sua jornada evolutiva. Na Doutrina Espírita, a reencarnação é um dos princípios centrais, explicando a diversidade de condições humanas, o propósito da existência terrena e a justiça perfeita das leis divinas.
Definição Abrangente
Reencarnar significa, literalmente, “tornar a entrar na carne”. O espírito — ser inteligente e imortal — já existia antes do nascimento e continuará existindo após a morte. Entre uma encarnação e outra, ele habita o plano espiritual, onde avalia suas experiências passadas e se prepara para as futuras. A encarnação é, portanto, um episódio temporário na existência eterna do espírito, um período de aprendizado intensivo comparável a uma temporada escolar.
O Espiritismo distingue reencarnação de metempsicose — a crença em que a alma humana pode reencarnar em corpos de animais. Allan Kardec rejeita essa ideia, afirmando que a evolução é sempre progressiva: o espírito avança para condições mais elevadas, nunca retrocede a formas inferiores de vida.
O Raciocínio de Kardec em O Livro dos Espíritos
Em O Livro dos Espíritos, Kardec dedica extenso tratamento à reencarnação, especialmente nas questões 166 a 222. O raciocínio central é que a reencarnação é a única hipótese que concilia a justiça de Deus com as desigualdades observáveis entre os seres humanos.
Se Deus é justo e bom, argumenta Kardec, como explicar que algumas pessoas nasçam em condições de extrema miséria enquanto outras desfrutam de fartura? Como justificar que crianças inocentes sofram doenças graves desde o nascimento? Se admitirmos uma única existência, essas desigualdades são inexplicáveis e sugerem uma injustiça divina. A reencarnação resolve o problema: as condições de cada vida são consequência das escolhas e ações de vidas anteriores, e cada existência oferece a oportunidade de progresso.
Os espíritos superiores consultados por Kardec são enfáticos: “A reencarnação é uma necessidade da evolução. Sem ela, a perfeição seria privilégio de alguns e a condenação eterna seria o destino de muitos — o que contraria a bondade infinita de Deus.”
O Processo de Reencarnação
A reencarnação não é um evento aleatório. Segundo as descrições oferecidas pelos espíritos comunicantes e detalhadas em obras como Missionários da Luz e Entre a Terra e o Céu (de André Luiz por Chico Xavier), o processo envolve etapas cuidadosamente planejadas:
Planejamento
Após um período de permanência no plano espiritual — cuja duração varia conforme cada caso —, o espírito inicia a preparação para sua próxima encarnação. Esse planejamento é conduzido com a orientação de mentores espirituais e espíritos mais experientes. São definidas as linhas gerais da nova existência: as provas que o espírito enfrentará, as oportunidades de resgate e crescimento, e os encontros significativos que terá.
Escolha da Família e do Corpo
O espírito participa da escolha do ambiente familiar e das condições corporais de sua próxima encarnação. Essa escolha não é inteiramente livre — está condicionada pelo mérito do espírito e pelas necessidades de sua evolução. Um espírito que precisa desenvolver humildade pode escolher nascer em condições modestas. Um que necessita reparar injustiças cometidas contra determinada pessoa pode reencarnar como seu filho, irmão ou parceiro.
As condições do corpo físico são influenciadas pelo estado do perispírito, que carrega as marcas das encarnações anteriores. Doenças congênitas, deficiências e predisposições podem ter raízes em experiências de vidas passadas, impressas no perispírito e refletidas no novo organismo.
O Esquecimento
O esquecimento das vidas anteriores é considerado uma providência divina. Ele permite que o espírito enfrente suas provas sem o peso das lembranças de erros passados e sem preconceitos em relação a pessoas com quem conviveu em outras existências. Imagine saber que seu vizinho foi seu algoz em vida anterior — o perdão se tornaria infinitamente mais difícil.
Esse esquecimento não é absoluto. Intuições, afinidades espontâneas, talentos precoces, fobias inexplicáveis e déjà-vus podem ser reflexos de experiências de vidas anteriores que transparecem através do perispírito. Kardec explica que o esquecimento cobre as circunstâncias, mas não apaga as conquistas: as virtudes desenvolvidas em uma vida permanecem como patrimônio do espírito na seguinte.
A Reencarnação Progressiva
Um princípio fundamental do Espiritismo é que a evolução é sempre progressiva. O espírito pode estagnar temporariamente, mas nunca retrocede. Cada encarnação, mesmo aquelas marcadas por sofrimento e aparente fracasso, produz algum aprendizado. Com o passar das existências, o espírito vai desenvolvendo virtudes, ampliando sua compreensão e purificando seus sentimentos, até atingir um grau de evolução que o dispense da necessidade de reencarnar.
Esse destino final — a perfeição relativa que liberta o espírito do ciclo de encarnações — não é privilégio de alguns eleitos, mas a meta de todos os espíritos, sem exceção. A diferença entre os seres humanos é apenas de grau evolutivo, não de natureza.
Intervalo entre as Vidas
O período que o espírito passa no plano espiritual entre duas encarnações varia enormemente. Pode ser de dias, anos, séculos ou milênios, dependendo das circunstâncias. Espíritos que desencarnaram em estado de grande perturbação podem reencarnar rapidamente, quase sem intervalo consciente. Espíritos mais evoluídos tendem a permanecer mais tempo no plano espiritual, onde desempenham atividades de estudo e serviço antes de retornar à vida corporal.
Kardec esclarece que não existe uma regra fixa. O intervalo é determinado pela necessidade evolutiva do espírito e pelas condições disponíveis para sua reencarnação.
Reencarnação e a Lei de Causa e Efeito
A reencarnação está intimamente ligada à lei de causa e efeito, que o Espiritismo apresenta como a expressão da justiça divina. Toda ação gera consequências que se desdobram ao longo das existências. O bem praticado retorna como bênçãos e oportunidades. O mal cometido retorna como provas e expiações — não como punição, mas como oportunidade de reparação e aprendizado.
O conceito de carma, presente no hinduísmo e no budismo, tem semelhanças com a lei de causa e efeito espírita, embora com diferenças importantes. No Espiritismo, não existe destino inexorável: o espírito sempre pode modificar sua trajetória por meio do arrependimento, da reforma íntima e da prática do bem. As provas de uma encarnação não são castigos inflexíveis, mas oportunidades de resgate que o próprio espírito aceitou voluntariamente.
Memórias de Vidas Passadas
Embora o esquecimento seja a regra, existem relatos de pessoas que demonstram memórias aparentes de vidas anteriores. Crianças pequenas são as fontes mais frequentes desses relatos, descrevendo espontaneamente pessoas, lugares e acontecimentos que não poderiam conhecer por meios normais. À medida que crescem, essas memórias tendem a se dissipar.
No contexto espírita, essas memórias são compreendidas como impressões do perispírito que, em determinadas circunstâncias, transparecem à consciência do encarnado. Elas não contradizem a providência do esquecimento, pois são fragmentárias e não comprometem o processo de aprendizado da vida atual.
Terapia de Vidas Passadas
A terapia de vidas passadas, ou TVP, é uma abordagem terapêutica que utiliza técnicas de regressão para acessar memórias de encarnações anteriores com o objetivo de tratar conflitos, fobias e sintomas cuja origem não é encontrada na vida atual. Embora não seja uma prática exclusivamente espírita — e nem todos os centros espíritas a endossem —, ela se fundamenta no princípio da reencarnação e tem ganhado espaço no campo das terapias complementares.
Profissionais que praticam a TVP relatam resultados significativos em casos de fobias inexplicáveis, dores crônicas sem causa orgânica e padrões de comportamento repetitivos. A comunidade científica convencional mantém reservas quanto à técnica, argumentando que as “memórias” acessadas podem ser construções da imaginação.
A Reencarnação nas Diversas Culturas
A crença na reencarnação não é exclusiva do Espiritismo. Ela está presente em tradições milenares:
- Hinduísmo: ensina o ciclo de samsara, no qual a alma transmigra de corpo em corpo conforme seu carma, buscando a libertação final (moksha).
- Budismo: embora com nuances filosóficas distintas, reconhece o ciclo de renascimentos como uma condição do sofrimento humano, do qual se busca libertar pelo caminho óctuplo.
- Tradições indígenas: diversos povos originários possuem crenças em renascimento, muitas vezes ligadas à ancestralidade e à conexão com a natureza.
- Filosofia grega: Pitágoras e Platão ensinavam a transmigração das almas, e essa ideia influenciou correntes filosóficas e religiosas ao longo dos séculos.
- Cristianismo primitivo: há registros de que alguns pais da Igreja, como Orígenes, admitiam a preexistência da alma, ideia que tem afinidade com a reencarnação, embora tenha sido condenada por concílios posteriores.
O Espiritismo se distingue dessas tradições ao apresentar a reencarnação como um princípio racional, articulado com a evolução moral progressiva e a lei de causa e efeito, sem elementos de fatalismo ou condenação eterna.
Pesquisa Científica: Ian Stevenson
O psiquiatra canadense Ian Stevenson (1918-2007), da Universidade da Virgínia, dedicou mais de quarenta anos à investigação científica de casos sugestivos de reencarnação. Stevenson documentou mais de dois mil e quinhentos casos de crianças que relatavam memórias de vidas anteriores, muitas das quais foram verificadas e confirmadas por investigação independente.
Sua obra principal, Twenty Cases Suggestive of Reincarnation (1966), apresenta casos detalhados em que crianças descreveram com precisão nomes, locais e circunstâncias da vida de pessoas falecidas que não poderiam ter conhecido. Stevenson também pesquisou marcas de nascença e defeitos congênitos que correspondiam a ferimentos sofridos pela personalidade anterior, estabelecendo correlações surpreendentes.
Embora a comunidade científica convencional não considere esses estudos como prova definitiva da reencarnação, o rigor metodológico de Stevenson é amplamente reconhecido. Seu trabalho foi continuado por Jim Tucker, também da Universidade da Virgínia, que tem publicado novos estudos com casos norte-americanos.
Objeções Comuns e Respostas
“Se a reencarnação existe, por que não lembramos de vidas passadas?” — O esquecimento é uma providência divina que permite ao espírito enfrentar suas provas com liberdade, sem o peso das memórias anteriores.
“A população mundial cresce — de onde vêm tantos espíritos?” — O Espiritismo ensina que o número de espíritos é incalculável e que a Terra recebe espíritos de outros mundos. Além disso, espíritos que antes encarnavam em outros planetas podem estar vindo para a Terra como parte de seu processo evolutivo.
“A reencarnação não contradiz a ressurreição cristã?” — Kardec argumenta que a reencarnação e os ensinamentos de Jesus são compatíveis, citando passagens evangélicas como a referência a João Batista como Elias que havia de vir (Mateus 11:14).